| ENVIO
E REENVIO
Uma reflexão bíblica
A
cada ano fiscais do INMETRO aferem as bombas dos postos
de combustível. Com isto visam garantir a exatidão
da medida de litro usada. Procedimento semelhante é
indispensável na igreja! Ela não distribui
combustíveis, mas abastece pessoas com o Evangelho.
Em suas aferições o INMETRO recorre a uma
medida padrão, a igreja de Jesus Cristo, às
Sagradas Escrituras! Continuamente ela precisa conferir
seu ensino e suas práticas no cânone bíblico!
Caso contrário seu ‘abastecimento’ ficará
comprometido pelo desgaste do tempo ou corroído por
interesses estranhos ao Evangelho.
Um
assunto que as comunidades luteranas precisam submeter à
aferição bíblica, é Proposta
de Regulamentação de Envio e Reenvio em
estudo na IECLB. Nela propõe-se que as comunidades
abram mão de seu centenário direito de escolher
seus obreiros ordenados, direito que, aliás, já
Martinho Lutero defendia como inalienável. A proposta
ora em estudo delega o preenchimento de 50% das vagas ao
Pastor Presidente e à sua assessoria. Da mesma forma
propõe-se aos obreiros restrições à
sua liberdade de candidatar-se à vagas na mesma proporção.
A presente reflexão bíblica quer trazer alguns
subsídios bíblicos para esta análise
e debate deste assunto.
A
LIBERDADE DAS IGREJAS
Ao
sondar as Escrituras quanto à liberdade de uma comunidade
de eleger seus obreiros e líderes logo deparamo-nos,
no livro de Atos, com várias passagens que podem
nortear-nos nesta reflexão.
Em Atos 6 nos é relatado que, em meio ao vertiginoso
crescimento da igreja de Jerusalém, várias
pessoas eram ‘esquecidas’ na assistência
dos pobres. Ainda que isto acontecesse nas suas ‘barbas’,
os apóstolos não se deram conta do problema
antes do ‘murmúrio’ tornar-se sonoro!
Ao tomarem conhecimento deste descaso os apóstolos,
de imediato, delegaram a tarefa da assistência dos
necessitados, incumbindo a própria comunidade de
escolher os diáconos para assumi-la.
Apesar de viverem numa época patriarcal e autoritária,
a atitude dos apóstolos surpreende pelo seu caráter
democrático. Eles não imitaram o Sinédrio
do templo que impunha a sua visão, como, por exemplo,
no envio de Saulo a Damasco (At 9, 1s.). Em vez de seguirem
este modelo autoritário, mas apóstolos optaram
pela via participativa e comunitária, propondo a
eleição dos obreiros. Sua participação
neste processo limitou-se a orientar a igreja acerca do
perfil ético e espiritual adequado para esta função.
Mais tarde, na sua viagem pela Galácia, encontramos
os missionários Paulo e Barnabé agindo da
mesma forma (At 14.)! Ao regressar à Antioquia ele
visita as jovens igrejas, promovendo nelas a eleição
de presbíteros (=pastores). Nas suas cartas a Timóteo
e Tito também Paulo detalhou para a igreja de todos
os tempos os critérios espirituais e éticos
que devem orientar a escolha de suas lideranças espirituais.
Para entender a razão desta postura apostólica
é necessário levar em conta dois fatores.
O primeiro é um aspecto do contexto histórico
da igreja primitiva. A leitura atenciosa de Atos nos mostra
que ela organizou-se, Império Romano afora, seguindo
o modelo das sinagogas!, Longe da hierarquia aristocrática
do templo em Jerusalém, estas comunidades judaicas,
há muito tempo, já ensaiavam procedimentos
democráticos e participativos. O segundo fator a
motivar os apóstolos era decorrente da experiência
de fé e, por isto mais importante. Eles sabiam que,
em Pentecostes (At 2), não apenas eles, mas toda
a igreja havia recebido o Espírito Santo. Esta dádiva
divina integra cada cristão no sacerdócio
real (1Pe 2.9; Ap 5.10) e o capacita e incumbe de participar
da missão Deus, habilitando-o, inclusive, a participar
da tomada de decisões!
Como conclusão desta breve análise impõem-se
duas perguntas:
1a. Pode um grêmio eclesiástico privar
uma comunidade local da liberdade de escolher o seu obreiro,
sem insinuar que a esta falte o Espírito Santo para
fazê-lo, ela mesma?
2a. Pode uma comunidade que conhece as necessidades e os
desafios da missão de Deus ao seu derredor abdicar
da sua responsabilidade de orientar-se na vontade de Deus,
delegando ao Pastor Presidente e à sua assessoria
a decisão da escolha do obreiro?
O
CHAMADO DOS OBREIROS
A questão do envio de obreiros, também merece
uma reflexão bíblica no que tange ao próprio
obreiro. Também nisto encontramos orientação
nas Sagradas Escrituras:
Quando surgiu uma igreja em Antioquia, a comunidade de Jerusalém
enviou para lá Barnabé (At 11.22)! Foi nesta
cidade que a evangelização propositadamente
ultrapassou a fronteira étnica, de modo que pessoas
sem costumes judeus passaram a integrar a igreja. Quando
a notícia disto chegou a Jerusalém, Barnabé
foi escolhido para assistir a estes cristãos. Pelo
fato de ser natural de Chipre o habilitava a entender e
a inserir-se na cultura helenístico daquela metrópole.
Sua atuação revela que ele realmente tinha
os dons necessários para o ministério naquela
igreja.
Quando, mais tarde Barnabé e Paulo foram enviados
para a missão, não são os apóstolos
de Jerusalém, mas é a igreja de Antioquia
quem os envia em obediência ao chamado do Senhor (At
13.2).
Um terceiro episiódio relatado em Atos é o
início da missão na Europa que se dá
durante a segunda viagem missionária de Paulo. Em
Trôade Paulo, numa visão, recebe um chamado
pessoal (At 16.6ss). Depois de compartilhá-lo com
os irmãos que o acompanhavam, todos concluíram
que o Deus os “tinha chamado para ... pregar o evangelho”
aos macedônios! Sem consultar nem a Antioquia, nem
a Jerusalém eles iniciam a missão no continente
Europeu indo a Filipos!
Vale lembrar ainda o envio de Apolo à igreja de Corinto.
Atos relata que ele queria ir para lá e um casal
de ‘leigos’(!), Priscila e Áqüila,
escreveu uma carta de recomendação aos irmãos
de lá (At 18.27). Mais tarde o próprio apóstolo
Paulo, endoussaria o ministério deste pregador, ao
escrever “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é
quem faz crescer”(1Co 3.6)
Nos quatro casos fica evidente que a percepção
do chamado de Deus pelo próprio enviado é
indispensável para o seu envio! Todos foram enviados
para onde Deus os chamou! E, da história do profeta
Jonas sabemos que, quem ignora o chamado divino, incorre
em juízo.
A partir destes exemplos impõe-se, portanto, a pergunta:
O chamado pessoal e intransferível de Deus não
deve ser o critério elementar para um obreiro nas
decisões sobre os rumos do exercício do seu
ministério?
O
ESTILO DA LIDERANÇA CRISTÃ
Por fim ainda precisamos conferir, se a Bíblia dá
sustentação a aglutinação de
poder de decisão que a Proposta de Regulamentação
de Envio e Reenvio pretende dar à presidência
da IECLB e à Comissão de Designação
e Envio que o assessora.
Para tanto precisamos olhar para o retrato que o Novo Testamento
faz da maneira como os apóstolos em Jerusalém
e, mais tarde, o apóstolo Paulo, exerceram sua liderança
na igreja!
Nos relatos de Atos fica claro que os apóstolos não
gerenciaram a igreja. Isto fica evidente, por exemplo, na
missão na Samaria (At 8.1ss) que não foi nem
iniciada e nem coordenada pelos apóstolos. Pelo contrário,
esta iniciativa deveu-se aos segmento da comunidade que
Jerusalém que foi perseguido depois da morte de Estêvão.
Também o surgimento da igreja em Antioquia e a missão
entre os gentios nascida naquela igreja não estavam
sujeitas à Jerusalém.
Os apóstolos enviaram, sim, Pedro e João para
dar amparo espiritual aos grupinhos de cristãos espalhados
pela Samaria. Mais tarde delegaram a Barnabé a tarefa
de construir vínculos fraternais com a igreja em
Antioquia. E, quando a missão entre os gentios gerou
tensões, eles convocaram o Concílio dos Apóstolos
para tratar do assunto diante da igreja reunida.
Nestas atitudes percebe-se que os apóstolos não
detinham o controle da igreja. Eles, na verdade, nem o pretendiam,
porque entendiam que Jesus Cristo é o Senhor que
dirige a sua igreja. Em vista disto eles exerciam uma liderança
que corre atrás, constrói vínculos,
viabiliza caminhos de aceitação fraternal,
sem ingerir no crescimento ‘natural’ da igreja.
Aos nossos olhos posição deles parece frágil.
Mas os apóstolos, de modo algum, queriam ser ‘poderosos’
e, por isto, confundidos os que “governam e dominam
as nações” (Mc 10.42). Contrasta com
os poderosos do mundo que os líderes da primeira
primitiva preferiam “dedicar-se à oração
e ao ministério da palavra” (At 6.4).
Também o apóstolo Paulo enquadra-se neste
perfil de líder ‘fraco’ na autoridade
que exerceu sobre as igrejas que fundou (1 Co 4.10; 2 Co
10.10; 12.10). Suas interferências nunca foram executivas
ou impositivas! Pelo contrário, em suas cartas, ele
dialoga com as igrejas, explicando, argumentando, convencendo,
pedindo e, até implorando com “muitas lágrimas”
(2 Co 2.4). Também Paulo não recorre a ordens
de comando para não ferir a subordinação
e acesso diretos da comunidade ao Senhor. Isto vale até
para a problemática comunidade de Corinto!
Assim cabe perguntar se a IECLB pode atribuir à
sua presidência a amplitude de direito de decisão
pretendida pela Proposta de Regulamentação
de Envio e Reenvio, sem descaracterizar o estilo
de liderança ‘fraca’ preconizado nas
Escrituras e, com isto, negar o senhorio direto de Jesus
Cristo sobre cada comunidade?
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