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John Stott, 86 anos.
O
renomado evangelista e escritor Dr. John R.W. Stott, aos 86
anos, comunicou formalmente sua retirada do ministério
público durante a Convenção Keswick em
17 de julho, no Reino Unido. Os trabalhos do John Stott Ministries
continuarão sob a liderança do Dr. Chris Wright.
Pela editora Encontro Publicações, John Stott
publicou “A verdade do Evengelho”, atualmente
esgotado e o mais novo “Firmados na Fé”
(www.encontropublicacoes.com.br).
Confira na íntegra o sermão “O Modelo
– tornando-se mais como Cristo”, traduzido por
Maicon Steuernagel.
O Modelo – tornando-se mais como Cristo
Eu
me lembro vividamente que, alguns anos atrás, sendo
eu ainda um cristão mais novo, a pergunta que me intrigava
(e também a alguns de meus amigos) era esta: qual o
propósito de Deus para o seu povo? Uma vez que fomos
convertidos, salvos e recebemos vida nova em Jesus Cristo,
o que vem a seguir? Sabíamos, é claro, da famosa
afirmação do catecismo menor de Westminster:
que o propósito maior da humanidade é glorificar
a Deus e desfrutá-lo eternamente. Sabíamos disto,
e acreditávamos nisto. Também experimentávamos
algumas afirmações mais curtas, como uma de
apenas seis palavras: ame a Deus, ame ao próximo. Mas
de alguma forma nenhuma destas, e tampouco quaisquer outras
que pudéssemos mencionar, nos satisfaziam plenamente.
Sendo assim, gostaria de compartilhar com vocês onde
minha mente tem encontrado descanso enquanto eu me aproximo
do fim de minha peregrinação na terra: Deus
quer que seu povo se torne como Cristo. Semelhança
a Cristo é a vontade de Deus para o povo de Deus.
Se isto é verdade, me proponho ao seguinte: primeiro
a expor a base bíblica para o chamado à semelhança
a Cristo; depois, a dar alguns exemplos do Novo Testamento;
e por fim a delinear algumas conclusões práticas.
E tudo é relacionado ao assemelhar-se a Cristo.
Em primeiro lugar, portanto, vem a base bíblica para
o chamado à semelhança a Cristo. Esta base não
se resume a apenas um texto, sendo mais substancial do que
se poderia encapsular em um texto somente. Antes, consiste
de três textos que faríamos bem em assegurar
em nosso pensar e viver cristãos: Romanos 8.29, 2 Coríntios
3:18 e 1 João 3:2. Vejamos brevemente estes três.
Em Romanos 8:29 lemos que Deus predestinou seu povo para ser
conforme a imagem do seu Filho, ou seja, para tornar-se como
Jesus. Todos nós sabemos que, quando caiu, Adão
perdeu muito, embora não tudo, da imagem divina na
qual ele tinha sido criado. Mas Deus a restaurou em Cristo.
Conformidade com a imagem de Deus significa tornar-se como
Jesus; portanto, semelhança a Cristo é o eterno
propósito predestinador de Deus.
Meu segundo texto é 2 Coríntios 3:18: “E
todos nós, que com a face descoberta contemplamos a
glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo
transformados com glória cada vez maior, a qual vem
do Senhor, que é o Espírito.” É,
portanto, pelo próprio Espírito que em nós
habita que estamos sendo transformados com glória cada
vez maior – é uma visão magnífica.
Neste segundo estágio do tornar-se como Cristo, vocês
perceberão que a perspectiva mudou do passado para
o presente, da predestinação eterna de Deus
para sua transformação presente em nós
pelo Espírito Santo. Mudou do propósito eterno
de Deus de nos tornar como Cristo para sua ação
histórica pelo seu Santo Espírito para transformar-nos
à imagem de Jesus.
Isto me traz ao terceiro texto: 1 João 3:2. “Amados,
agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou
o que havemos de ser, mas sabemos que, quando ele se manifestar,
seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é.”
Não sabemos em detalhes o que seremos no último
dia, mas sabemos que seremos como Cristo. Nem é realmente
necessário que saibamos mais do que isso. Estamos satisfeitos
com a gloriosa verdade de que estaremos com Cristo e seremos
como Cristo, para sempre. Aqui há três perspectivas
– passado, presente e futuro. Todas apontam na mesma
direção: há o propósito eterno
de Deus – fomos predestinados; há o propósito
histórico de Deus – estamos sendo mudados, transformados
pelo Espírito Santo; e há o propósito
final, ou escatológico, de Deus – seremos como
Ele, pois o veremos como Ele é. Todos os três
propósitos – o eterno, o histórico e o
escatológico – convergem para o mesmo fim da
semelhança com Cristo. Este é, eu diria, o propósito
de Deus para o povo de Deus. Esta é a base bíblica
para o tornar-se como Cristo: este é o propósito
de Deus para o povo de Deus.
Quero ir adiante e ilustrar esta verdade com uma série
de exemplos do Novo Testamento. Primeiro, creio que é
importante que façamos uma afirmação
geral, como faz o apóstolo João em 1 João
2:6: “Aquele que afirma que permanece nele, deve andar
como ele andou.” Em outras palavras, se afirmamos que
somos cristãos, devemos ser como Cristo. Este é
o primeiro exemplo do Novo testamento: devemos ser como Cristo
em sua encarnação.
É possível que, diante dessa idéia, alguns
de vocês se recolham horrorizados. Certamente, vocês
me dirão, a encarnação foi um evento
absolutamente único; portanto, não haveria a
mínima possibilidade de ser imitado! Minha resposta
a este questionamento é sim e não. Sim, foi
única, na medida em que o Filho de Deus assumiu a nossa
humanidade em Jesus de Nazaré, de uma vez por todas
e para sempre, para jamais ser repetido. Isto é verdade.
Mas há também um outro sentido no qual a encarnação
não foi única: a maravilhosa graça de
Deus na encarnação de Cristo deve ser seguida
por todos nós. A encarnação, neste sentido,
não é única, mas universal. Somos chamados
a seguir o exemplo de sua imensa humildade em descer do céu
para a terra. Assim Paulo pode escrever em Filipenses 2:5-8:
“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus,
que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual
a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si
mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens.
E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo
e foi obediente até a morte, e morte de cruz!”
Devemos ser como Cristo em sua encarnação na
maravilhosa auto-humilhação que reside nela.
Em segundo lugar, devemos ser como Cristo em seu serviço.
Vamos adiante agora de sua encarnação para sua
vida de serviço; de seu nascimento à sua vida,
do começo ao fim. Deixe-me convidá-los a virem
comigo para o quarto superior onde Jesus passou sua última
noite com seus discípulos, conforme registrado no evangelho
de João no capítulo 13: “Ele tirou sua
capa e colocou uma toalha em volta da cintura, derramou água
numa bacia e lavou os pés dos seus discípulos.
Quando terminou, voltou ao seu lugar e disse, ‘se eu,
sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei-lhes os pés,
vocês também devem lavar os pés uns dos
outros. Eu lhes dei exemplo,” – percebam a palavra
– “para que vocês façam como lhes
fiz’.”
Alguns cristãos assumem a ordem de Jesus literalmente
e têm uma cerimônia de lava-pés em sua
Santa Ceia uma vez ao mês ou na Quinta-Feira Santa –
e pode ser que estejam certos em fazê-lo. Mas creio
que a maioria de nós transponha a ordem de Jesus culturalmente:
que assim como Jesus executou o que seria um trabalho de escravo
em sua cultura, também nós não deveríamos
presumir nenhuma tarefa por demais humilhante ou degradante,
em nossa própria cultura, para que a façamos
uns pelos outros.
Em terceiro lugar, devemos ser como Cristo em seu amor. Penso
agora particularmente em Efésios 5:2: “e vivam
em amor, como também Cristo nos amou e se entregou
por nós como oferta e sacrifício de aroma agradável
a Deus.” Percebam que o texto contém duas partes.
A primeira é viver em amor, uma determinação
de que todo o nosso proceder deveria ser caracterizado pelo
amor. Mas a segunda parte do versículo fala que Ele
se doou por nós, o que não se trata de uma continuidade,
mas de um aoristo, uma conjugação no passado,
uma referência clara à cruz. Paulo está
nos constrangendo a sermos como Cristo em sua morte, a amarmos
com o amor auto-doador demonstrado no Calvário. Percebam
o que está se desenvolvendo: Paulo está nos
constrangendo a sermos como o Cristo da encarnação,
a sermos como o Cristo do lava-pés e a sermos como
o Cristo da cruz. Estes três eventos da vida de Cristo
indicam claramente o que assemelhar-se a Cristo significa
na prática.
Em quarto lugar, devemos ser como Cristo em sua persistência
paciente. Neste próximo exemplo consideramos não
o ensino de Paulo, mas o de Pedro. Cada capítulo da
primeira carta de Pedro contém uma alusão ao
nosso sofrer como Cristo, sendo o pano de fundo desta carta
o começo da perseguição. Particularmente
no capítulo 2 de 1 Pedro, o autor estimula os escravos
cristãos a, se punidos injustamente, suportar e não
revidar o mal com mal. Pois, Pedro prossegue, fomos chamados
a isto porque Cristo também sofreu, deixando-nos um
exemplo – e aqui está aquela palavra de novo
– para que sigamos seus passos. Esse chamado à
semelhança a Cristo no sofrimento injusto pode muito
bem se tornar cada vez mais relevante à medida que
a perseguição cresce em muitas culturas no mundo
todo.
Meu quinto e último exemplo do Novo Testamento é
que devemos ser como Cristo em sua missão. Tendo olhado
para os ensinamentos de Paulo e Pedro, chegamos agora aos
ensinamentos de Jesus registrados por João. Em João
20:21 Jesus diz, em oração, “Assim como
o Pai me enviou, eu os envio” – esses somos nós.
E na sua comissão em João 17 ele diz “Como
o Pai me enviou ao mundo, assim ou os envio.” Essas
palavras são imensamente significativas. Estão
não é apenas a versão de João
da Grande Comissão, mas também uma instrução
que a missão deles no mundo deveria remeter à
missão de Cristo. De que forma? As palavras-chave nesses
textos são “enviados ao mundo”. Como Cristo
entrou em nosso mundo, assim nós devemos entrar nos
mundos de outras pessoas. Isso foi eloqüentemente explicado
pelo Arcebispo Michael Ramsey alguns anos atrás: “Nós
declaramos e recomendamos a fé somente na medida em
que saímos e nos colocamos com simpatia amorosa dentro
das dúvidas dos que duvidam, das perguntas dos que
perguntam e da solidão dos que perderam o caminho”.
Esse entrar no mundo de outras pessoas é exatamente
o que entendemos por evangelismo de encarnação.
Toda missão autêntica é missão
de encarnação. Devemos ser como Cristo em sua
missão. Essas são as cinco principais maneiras
pelas quais devemos ser semelhantes a Cristo: na sua encarnação,
no seu serviço, no seu amor, na sua persistência
e na sua missão.
Rapidamente, gostaria de lhes dar três conseqüências
práticas do assemelhar-se a Cristo.
Em primeiro lugar, o assemelhar-se a Cristo e o mistério
do sofrimento. Sofrimento é um assunto enorme por si
só, e há muitas formas pelas quais os Cristãos
tentam entendê-lo. Uma forma se ressalta: que o sofrimento
é uma parte do processo de Deus para nos tornar semelhantes
a Cristo. Quer soframos de um desapontamento, uma frustração
ou alguma outra tragédia dolorosa, devemos tentar encarar
a situação à luz de Romanos 8:28-29.
De acordo com Romanos 8:28, Deus está sempre trabalhando
para o bem de seu povo, e de acordo com Romanos 8:29, esse
bom propósito é tornar-nos como Cristo.
Em segundo lugar, semelhança a Cristo e o desafio do
evangelismo. Porque será, você já deve
ter perguntado, como eu também o fiz, que em muitas
situações nosso esforço evangelístico
é carregado de fracasso? Diversas razões podem
ser dadas e eu não quero simplificar por demais, mas
uma razão fundamental é que não nos parecemos
com o Cristo que estamos proclamando. John Poulton, que escreveu
sobre isto em um pequeno grupo, muito perceptivo, intitulado
“Um tipo atual de evangelismo”, escreveu o seguinte:
“A pregação mais efetiva vem daqueles
que corporificam as coisas que estão dizendo. Eles
são a mensagem. Cristãos precisam parecer com
o que estão falando. São primariamente, não
palavras ou idéias, mas pessoas que comunicam. Autenticidade
se transmite. No mais íntimo das pessoas, o que comunica
hoje é basicamente autenticidade pessoal.”
Isso é semelhança a Cristo. Deixe-me dar um
outro exemplo. Havia um professor hindu na Índia que
certa vez identificou um de seus alunos como sendo cristão
e lhe disse: “Se vocês cristãos vivessem
como Jesus Cristo, a Índia estaria a seus pés
amanhã.” Eu acho que a Índia estaria aos
seus pés hoje se nós cristãos vivêssemos
como Cristo. Do mundo islâmico, o Reverendo Iskandar
Jadeed, que era um árabe muçulmano, disse que
“se todos os cristãos fossem cristãos
– isto é, como Cristo – não haveria
mais Islã hoje.”
Isto me leva ao meu terceiro ponto – a semelhança
a Cristo e a presença do Espírito. Eu falei
muito hoje sobre o assemelhar-se a Cristo, mas isso é
possível? Pela nossa própria força, obviamente,
não é. Mas Deus nos deu o seu Espírito
Santo para habitar em nós, para nos mudar de dentro
para fora. William Temple, arcebispo na década de 1940,
costumava ilustrar essa questão a partir de Shakespeare:
“Não adianta nada me dar uma peça como
Hamlet ou Rei Lear e me dizer para escrever uma peça
assim. Shakespeare conseguia – eu não. E não
adianta nada me mostrar uma vida como a vida de Jesus e me
dizer para viver uma vida assim. Jesus conseguia – eu
não. Mas se a genialidade de Shakespeare pudesse vir
e habitar em mim, então eu poderia escrever uma peça
como essas. E se o Espírito pudesse vir para dentro
de mim, então eu poderia viver uma vida como a dEle.”
Então eu concluo como um breve sumário do que
tentamos dizer um ao outro: o propósito de Deus é
nos tornar semelhantes a Cristo. A maneira de Deus para assemelhar-nos
a Cristo é nos enchendo com o seu Espírito.
Em outras palavras, trata-se de uma conclusão trinitária,
que diz respeito ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
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