UM POUCO DE HISTÓRIA
Martin Weingaertner
Curitiba, PR
 

Um século depois da Reforma surgia, no seio da igreja luterana, um desconforto com a sua prática eclesial. Após os horrores da Guerra dos Trinta Anos manifestava-se a inquietação com a incoerência entre doutrina e vivência da fé. Reclamava-se que no andar superior da fé habita um crente, enquanto que no andar térreo da vida cotidiana impera um alcoólatra. O pastor Spener catalisou este sentimento em seu livro "Mudança para o Futuro - Pia Desideria". Nascia o pietismo preocupado com uma vivência pessoal e eclesial adequada ao evangelho. Ele contribuiu para a difusão e o estudo da Bíblia, para a democratização do acesso à formação e ensaiou os primeiros passos rumo ao ecumenismo e à missão. Muitos dos seus hinos, como "Guia-nos Jesus, com a tua luz", foram acolhidos nos hinários luteranos. E a confirmação pública da fé foi adotada por todas as igrejas luteranas como sua celebração mais popular e festiva.

No século 19 as igrejas européias experimentaram um novo período de renovação. Neste despertamento a crítica à igreja estabelecida já não mais se limitava à vivência da fé. Entrementes o iluminismo modificara o quadro doutrinário nas igrejas por elevar a nossa razão à posição de árbitro da verdade. Passou-se a filtrar a Bíblia pela razão: o que não passava por esta peneira era reinterpretado, ignorado ou, até, descartado. Em vista disto os movimentos de reavivamento enfatizaram a validade e autoridade da Palavra de Deus. Vários destes movimentos contribuíram na formação das comunidades congregadas na IECLB.

Uma retrospectiva também precisa mencionar dois pastores cujo testemunho marcou a articulação da piedade em nosso meio: Alcides Jucksch, que viajou como evangelista a todos os recantos do país, e Lindofo Weingärtner, que dedicou-se mais à formação e à atividade literária. Por fim, lembramos, ainda, que o movimento dos Navegadores contribuiu para despertar-nos para o desafio evangelístico.

Assim o Movimento Encontrão nasceu numa confluência. Catalisador deste processo foi John Aamot, missionário da igreja norte-americana. Ele não trazia consigo a bagagem da germanidade, ainda onipresente na década de 60 no meio luterano. Também o fato de, nos Estados Unidos, um pastor não ser equiparado a um funcionário público, trouxe uma jovialidade ao pastorado que a nossa tradição germânica desconhecia. Sua proposta de evangelizar, discipular e treinar fez com que o seu trabalho transcendesse os limites da membresia tradicional e formal da comunidade luterana e, assim, também da germanidade. O despertamento na Comunidade Evangélica de Novo Hamburgo-RS passou a agregar leigos, pastores e estudantes de teologia também de outras origens a este movimento que se reunia informal e espontaneamente. Após o regresso de Aamot aos Estados Unidos, Reynoldo Frenzel passou a liderar por mais de uma década o movimento. No início dos anos 90, com a fundação do Centro de Pastoral e Missão em parceria com a IECLB, o bastão da liderança passou para Valdir Steuernagel.

Compreendemo-nos como um movimento de discípulos de Jesus, ajudando outros a serem discípulos de Jesus

A PROPOSTA MINISTERIAL DO MOVIMENTO ENCONTRÃO

Nossa proposta ministerial passou por duas crises internas: a questão social e a questão carismática.

Desde o seu início a proposta do Movimento Encontrão foi, fundamentalmente, de cunho ministerial. Isto significa que teologicamente ele sempre se posicionou no espaço demarcado pela Reforma luterana e abraçou a síntese: "Somente Cristo: somente a graça, somente a fé, somente a Escritura". O Encontrão se identifica com a exposição sucinta da fé que Lutero fez em seu belíssimo escrito "Da liberdade cristã". Neste contexto maior compreendemo-nos como um movimento de discípulos de Jesus, ajudando outros a serem discípulos de Jesus. Esta proposta desdobra-se em três passos que depreendemos do próprio ministério de Jesus: a evangelização, o discipulado e o treinamento.

A evangelização pretende oportunizar o encontro com o evangelho, como o Senhor Jesus. Como ninguém chega à fé automaticamente, tanto o testemunho pessoal como a pregação pública precisam ser movidos pelo interesse de apresentar a salvação a quem ainda não a conhece, desafiando para a fé (Rm 10.13-17). A evangelização não substitui nem anula o agir de Deus, que unicamente concede fé. Assim a ênfase evangelística não manipula, mas canaliza o evangelho ao mundo que nos cerca.

O segundo passo ministerial, o discipulado, visa acompanhar a quem ousa confiar em Jesus Cristo no ensaio da sua caminhada de fé, mesclando estudo da Bíblia com convivência fraternal e familiar. O propósito desta etapa é auxiliar no amadurecimento da vivência da fé no mundo em que vive. A marca do discipulado é a fraternidade, pois tanto o discipulador como o discípulo submetem-se ao ensino de Deus; ambos são teodidatas.

E o treinamento auxilia o discípulo a tornar-se evangelizador e discipulador. Entendemos esta proposta como resgate do sacerdócio geral dos crentes da Reforma luterana. Ainda que nesta etapa sejam abordadas questões práticas, o treinamento jamais se restringiu a elas. Ele abrange diversas iniciativas de formação teológica pessoal e comunitária. O desabrochar de dons gerou iniciativas comunitárias, capacitou lideranças, sempre visando a missão da Igreja. Os resultados positivos desse trabalho podem ser percebidos por toda a IECLB.

Esta proposta ministerial passou por duas crises internas. A primeira na década de 80. Marcado pelo despertamento pessoal para a fé e para a vivência da fé a nível familiar, fraternal e profissional, no horizonte de reflexão da primeira geração ainda não se incluía a questão social. No auge da teologia da libertação isto acarretou denúncia de individualismo e burguesia. A questão social, porém, também foi levantada internamente. Sem dúvida, seu processamento foi muito doloroso e tensão marcou muitos encontros. Mas, no decorrer do processo, aprendemos a incorporar a questão social. Assim nasceram projetos sociais nas mais diversas áreas, caracterizados pela participação de voluntários e pela abordagem que integra engajamento social e testemunho de fé. A segunda crise, nos anos 90, decorre do confronto com a questão carismática. Na medida em que saímos dos redutos tradicionais, defrontamo-nos com as igrejas pentecostais. Sua ousadia questiona os luteranos. Os carismáticos percebem um vácuo existente em nossa sociedade e ousam ocupá-lo, concorrendo com espiritismo, cultos afro, gnosticismo ... E o eclipse da doutrina do Espírito Santo na tradição luterana fez com que não estivéssemos preparados para este encontro. Assim, desafiados pelo movimento carismático, precisamos rever a nossa omissão teológica, dar ouvidos ao que Deus nos diz nas Escrituras e aprender a discernir uma postura adequada à doutrina bíblica do Espírito Santo.

RESPONDENDO A TRÊS PERGUNTAS

Por fim queremos abordar, com carinho, três temas cruciais a respeito dos quais, com freqüência, nos são feitas perguntas. Refiro-me à certeza da salvação, à autoridade da Bíblia e à reavaliação das tradições eclesiásticas.

A primeira pergunta é se é possível termos certeza da salvação. Ela é realmente importante. Há séculos a humanidade toma consciência crescente da incerteza em que está imersa. A filosofia da Era Moderna, o Iluminismo, ainda potenciou este sentimento. Ela elegeu a nossa razão como medida de todas as coisas e por isto afirma que apenas podemos aproximar-nos da verdade, sem jamais termos certeza dela. Tal pensamento filosófico, sorrateiramente, tornou-se moeda corrente nas igrejas, de modo que o sentimento de incerteza também se alastrou nelas. Mas não é isto que Deus pretende conosco. Quantas vezes a Bíblia repete a promessa Não tenha medo! Certamente ninguém alcançará certeza por si mesmo. Somente Deus pode concedê-la! E ele realmente o faz, ainda que não saibamos explicá-lo com nossa razão. Assim afirmamos que o cristão vive desta experiência graciosa. A certeza da salvação, portanto, não é fruto da razão, nem resultado de nosso esforço piedoso, mas é dádiva que Deus concede gratuitamente.

A segunda pergunta refere-se à nossa aceitação incondicional da autoridade da Escritura. Entendemos a Bíblia na perspectiva do reformador Martim Lutero. No seu tempo ela não era questionada. Tanto reformadores como católicos comungavam, com os pais da Igreja, do reconhecimento da autoridade das Escrituras. Ao enfatizar a centralidade de Cristo no testemunho bíblico Lutero não legitimou qualquer leitura da Bíblia, nem diluiu a sua autoridade. Pelo contrário, ele apenas mostra a direção na qual Deus quer conduzir-nos com sua palavra. Diante do crescente relativismo e desrespeito com que se trata a Bíblia cremos ser necessário reafirmar, compromentidos, que "cremos que a Bíblia é a palavra inspirada de Deus e revelada aos homens, suprema autoridade em matéria de fé e conduta, tendo como centro irradiador o anúncio de Jesus Cristo"

Por fim, uma última questão. Por toda parte o Movimento Encontrão tem questionado muitas tradições seculares. Apreensivos, os segmentos mais tradicionais da igreja criticam isto. O assunto é delicado. Vou tentar dizer por que insistimos em reavaliar nossas tradições. Por séculos a igreja luterana existiu em meio a uma sociedade européia homogênea e pretendia abranger todas as pessoas dum lugar. Este modelo foi transferido para terras brasileiras; subsistiu, aqui, por mais de um século. Mas a urbanização encarregou-se de confrontar-nos com a diversidade cultural e religiosa brasileira. Além disto os meios de comunicação despejam a pluralidade pós-moderna em nossos lares. Isto causou uma profunda ruptura. Nossas tradições luteranas já não conseguem mais comunicar-se fora da redoma em que surgiram. Este fato requer uma revisão da nossa tradição eclesiástica na busca de uma maneira concreta de viver a fé no evangelho em nosso tempo e país. Ainda que nesta avaliação haja percepções diversas dentro do próprio Encontrão, ele, como um todo, está imbuído da busca de novos modelos de expressão da fé para sua vida pessoal e comunitária firmados em Cristo, o fundamento firmado por Deus (1 Co 3.11).

   
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