Um
século depois da Reforma surgia, no seio da igreja
luterana, um desconforto com a sua prática eclesial.
Após os horrores da Guerra dos Trinta Anos manifestava-se
a inquietação com a incoerência entre doutrina e vivência
da fé. Reclamava-se que no andar superior da fé habita
um crente, enquanto que no andar térreo da vida cotidiana
impera um alcoólatra. O pastor Spener catalisou este
sentimento em seu livro "Mudança para o Futuro
- Pia Desideria". Nascia o pietismo preocupado
com uma vivência pessoal e eclesial adequada ao evangelho.
Ele contribuiu para a difusão e o estudo da Bíblia,
para a democratização do acesso à formação e ensaiou
os primeiros passos rumo ao ecumenismo e à missão.
Muitos dos seus hinos, como "Guia-nos Jesus,
com a tua luz", foram acolhidos nos hinários
luteranos. E a confirmação pública da fé foi adotada
por todas as igrejas luteranas como sua celebração
mais popular e festiva.
No
século 19 as igrejas européias experimentaram um novo
período de renovação. Neste despertamento a crítica
à igreja estabelecida já não mais se limitava à vivência
da fé. Entrementes o iluminismo modificara o quadro
doutrinário nas igrejas por elevar a nossa razão à
posição de árbitro da verdade. Passou-se a filtrar
a Bíblia pela razão: o que não passava por esta peneira
era reinterpretado, ignorado ou, até, descartado.
Em vista disto os movimentos de reavivamento enfatizaram
a validade e autoridade da Palavra de Deus. Vários
destes movimentos contribuíram na formação das comunidades
congregadas na IECLB.
Uma
retrospectiva também precisa mencionar dois pastores
cujo testemunho marcou a articulação da piedade em
nosso meio: Alcides Jucksch, que viajou como evangelista
a todos os recantos do país, e Lindofo Weingärtner,
que dedicou-se mais à formação e à atividade literária.
Por fim, lembramos, ainda, que o movimento dos Navegadores
contribuiu para despertar-nos para o desafio evangelístico.
Assim
o Movimento Encontrão nasceu numa confluência. Catalisador
deste processo foi John Aamot, missionário
da igreja norte-americana. Ele
não trazia consigo a bagagem da germanidade, ainda
onipresente na década de 60 no meio luterano. Também
o fato de, nos Estados Unidos, um pastor
não ser equiparado a um funcionário público, trouxe
uma jovialidade ao pastorado
que a nossa tradição germânica desconhecia. Sua proposta
de evangelizar, discipular
e treinar fez com que o seu trabalho transcendesse
os limites da membresia tradicional e formal da comunidade
luterana e, assim, também da germanidade. O despertamento
na Comunidade Evangélica de Novo Hamburgo-RS passou
a agregar leigos, pastores e estudantes de teologia
também de outras origens a este movimento que se reunia
informal e espontaneamente. Após
o regresso de Aamot aos Estados Unidos, Reynoldo
Frenzel passou a liderar
por mais de uma década o movimento. No início dos
anos 90, com a fundação do Centro de Pastoral e Missão
em parceria com a IECLB, o bastão da liderança
passou para Valdir Steuernagel.
Compreendemo-nos
como um movimento de discípulos de Jesus, ajudando
outros a serem discípulos de Jesus
A
PROPOSTA MINISTERIAL DO MOVIMENTO ENCONTRÃO
Nossa
proposta ministerial passou por duas crises internas:
a questão social e a questão carismática.
Desde
o seu início a proposta do Movimento Encontrão foi,
fundamentalmente, de cunho ministerial. Isto significa
que teologicamente ele sempre se posicionou no espaço
demarcado pela Reforma luterana e abraçou a síntese:
"Somente Cristo: somente a graça, somente a fé,
somente a Escritura". O Encontrão se identifica
com a exposição sucinta da fé que Lutero fez em seu
belíssimo escrito "Da liberdade cristã".
Neste contexto maior compreendemo-nos como um movimento
de discípulos de Jesus, ajudando outros a serem discípulos
de Jesus. Esta proposta desdobra-se em três passos
que depreendemos do próprio ministério de Jesus: a
evangelização, o discipulado e o treinamento.
A
evangelização pretende oportunizar o encontro com
o evangelho, como o Senhor Jesus. Como ninguém chega
à fé automaticamente, tanto o testemunho pessoal como
a pregação pública precisam ser movidos pelo interesse
de apresentar a salvação a quem ainda não a conhece,
desafiando para a fé (Rm 10.13-17). A evangelização
não substitui nem anula o agir de Deus, que unicamente
concede fé. Assim a ênfase evangelística não manipula,
mas canaliza o evangelho ao mundo que nos cerca.
O
segundo passo ministerial, o discipulado, visa acompanhar
a quem ousa confiar em Jesus Cristo no ensaio da sua
caminhada de fé, mesclando estudo da Bíblia com convivência
fraternal e familiar. O propósito desta etapa é auxiliar
no amadurecimento da vivência da fé no mundo em que
vive. A marca do discipulado é a fraternidade, pois
tanto o discipulador como o discípulo submetem-se
ao ensino de Deus; ambos são teodidatas.
E
o treinamento auxilia o discípulo a tornar-se evangelizador
e discipulador. Entendemos esta proposta como resgate
do sacerdócio geral dos crentes da Reforma luterana.
Ainda que nesta etapa sejam abordadas questões práticas,
o treinamento jamais se restringiu a elas. Ele abrange
diversas iniciativas de formação teológica pessoal
e comunitária. O desabrochar
de dons gerou iniciativas comunitárias, capacitou
lideranças, sempre visando a missão da Igreja. Os
resultados positivos desse trabalho podem ser percebidos
por toda a IECLB.
Esta
proposta ministerial passou por duas crises internas.
A primeira na década de 80. Marcado pelo despertamento
pessoal para a fé e para a vivência da fé a
nível familiar, fraternal e profissional, no horizonte
de reflexão da primeira geração ainda não se incluía
a questão social. No auge da teologia da libertação
isto acarretou denúncia de individualismo e burguesia.
A questão social,
porém, também foi levantada internamente. Sem dúvida,
seu processamento foi muito doloroso e tensão marcou
muitos encontros. Mas, no decorrer do processo, aprendemos
a incorporar a questão social. Assim nasceram projetos
sociais nas mais diversas áreas, caracterizados pela
participação de voluntários e pela
abordagem que integra engajamento social e testemunho
de fé. A segunda crise, nos anos 90, decorre
do confronto com a questão carismática. Na medida
em que saímos dos redutos tradicionais, defrontamo-nos
com as igrejas pentecostais. Sua ousadia questiona
os luteranos. Os carismáticos percebem um vácuo existente
em nossa sociedade e ousam ocupá-lo, concorrendo com
espiritismo, cultos afro, gnosticismo ... E
o eclipse da doutrina do Espírito Santo na tradição
luterana fez com que não estivéssemos preparados para
este encontro. Assim, desafiados pelo movimento
carismático, precisamos rever a nossa omissão teológica,
dar ouvidos ao que Deus nos diz nas Escrituras e aprender
a discernir uma postura adequada à doutrina bíblica
do Espírito Santo.
RESPONDENDO
A TRÊS PERGUNTAS
Por
fim queremos abordar, com carinho, três temas cruciais
a respeito dos quais, com freqüência, nos são feitas
perguntas. Refiro-me à certeza da salvação, à autoridade
da Bíblia e à reavaliação das tradições eclesiásticas.
A
primeira pergunta é se é possível termos certeza da
salvação. Ela é realmente importante. Há séculos a
humanidade toma consciência crescente da incerteza
em que está imersa. A filosofia da Era Moderna, o
Iluminismo, ainda potenciou este sentimento. Ela elegeu
a nossa razão como medida de todas as coisas e por
isto afirma que apenas podemos aproximar-nos da verdade,
sem jamais termos certeza dela. Tal pensamento filosófico,
sorrateiramente, tornou-se moeda corrente nas igrejas,
de modo que o sentimento de incerteza também se alastrou
nelas. Mas não é isto que Deus pretende conosco. Quantas
vezes a Bíblia repete a promessa Não tenha medo! Certamente
ninguém alcançará certeza por si mesmo. Somente Deus
pode concedê-la! E ele realmente o faz, ainda que
não saibamos explicá-lo com nossa razão. Assim afirmamos
que o cristão vive desta experiência graciosa. A certeza
da salvação, portanto, não é fruto da razão, nem resultado
de nosso esforço piedoso, mas é dádiva que Deus concede
gratuitamente.
A
segunda pergunta refere-se à nossa aceitação incondicional
da autoridade da Escritura. Entendemos a Bíblia na
perspectiva do reformador Martim Lutero. No seu tempo
ela não era questionada. Tanto reformadores como católicos
comungavam, com os pais da Igreja, do reconhecimento
da autoridade das Escrituras. Ao enfatizar a centralidade
de Cristo no testemunho bíblico Lutero não legitimou
qualquer leitura da Bíblia, nem diluiu a sua autoridade.
Pelo contrário, ele apenas mostra a direção na qual
Deus quer conduzir-nos com sua palavra. Diante do
crescente relativismo e desrespeito com que se trata
a Bíblia cremos ser necessário reafirmar, compromentidos,
que "cremos que a Bíblia é a palavra inspirada
de Deus e revelada aos homens, suprema autoridade
em matéria de fé e conduta, tendo como centro irradiador
o anúncio de Jesus Cristo"
Por
fim, uma última questão. Por toda parte o Movimento
Encontrão tem questionado muitas tradições seculares.
Apreensivos, os segmentos mais tradicionais da igreja
criticam isto. O assunto é delicado. Vou tentar dizer
por que insistimos em reavaliar nossas tradições.
Por séculos a igreja luterana existiu em meio a uma
sociedade européia homogênea e pretendia abranger
todas as pessoas dum lugar. Este modelo foi transferido
para terras brasileiras; subsistiu, aqui, por mais
de um século. Mas a urbanização encarregou-se de confrontar-nos
com a diversidade cultural e religiosa brasileira.
Além disto os meios de comunicação despejam a pluralidade
pós-moderna em nossos lares. Isto causou uma profunda
ruptura. Nossas tradições luteranas já não conseguem
mais comunicar-se fora da redoma em que surgiram.
Este fato requer uma revisão da nossa tradição eclesiástica
na busca de uma maneira concreta de viver a fé no
evangelho em nosso tempo e país. Ainda que nesta avaliação
haja percepções diversas dentro do próprio Encontrão,
ele, como um todo, está imbuído da busca de novos
modelos de expressão da fé para sua vida pessoal e
comunitária firmados em Cristo, o fundamento firmado
por Deus (1 Co 3.11). |